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Do nosso tempo, um retiro.

Seu corpo era meu retiro favorito aos finais de semana. Eram aqueles dois dias que me permitiam desconectar do mundo. Montávamos um templo e éramos inundadas de amor. Todas as vezes em que gargalhávamos na sacada daquela casa, enroladas em um lençol branco e dividindo um cigarro, enquanto o vinho rosé descia queimando pela garganta… todas essas lembranças ainda vivem em mim. E tu dizias que meus olhos incendiavam como meu corpo. Eu te devolvia os elogios com um sorriso largo e, em seguida, um beijo demorado daqueles que fazem as mãos, cheias de fome, puxarem automaticamente pela cintura. Por vezes, ficávamos horas filosofando sobre os encontros e desencontros da vida.  E, ao retornar para a cama, ritualizávamos a coreografia do corpo que, cada vez mais, desejava pertencer. Em um entardecer de outono, você chorou ao me olhar e disse que eu era a reza mais bonita que tinha pedido às deusas. Eu chorei ao te escutar me amando e me oferecendo tanta ternura. Eu tenho para mim que, naquel...

Versões

Já apaguei, escrevi, apaguei, reescrevi, chorei, pausei, retomei. Tem sido assim ha alguns dias. Senti que não parei para elaborar algumas das coisas que vivenciei ao longo do ano passado. Tenho a sensação que vivi duas vidas, dois mundos paralelos. Sinto que houveram duas versoes de mim, duas faces, duas selfies, duas temporadas. Estranho pensar que tem sido isso tudo desde então. É incomodo ver que por tantos meses perdi a direção da minha vida, que podei versões tão naturais de mim. Tentar retomar as rédeas é mais dificil do que imaginava diante de tantos atropelos pelo caminho. Lembro do dia que desembarquei aqui novamente, haviam propósitos bem objetivos e concretos, porém, desejos inconscientes ainda dormiam dentro de mim. Conforme eles foram despertando ganharam mais forças sobre as "certezas" que eu tinha e foi quando me vi fragmentar. E o questionamento que surge é se o propósito que mudou ou se eu que me deixei levar demais? Hoje compreendo o quanto o ambiente molda...

O amor é muita coisa

Acho difícil definir o amor a um único sentimento ou uma unica coisa. Mas pensando sobre ele nessa manhã nublada eu tenho para mim que o amor tem cheiro de café coado para iniciar o dia. O amor tem gosto de sobremesa favorita e de água quando se está com muita sede de beber. Amor tem sensação de abraço apertado e aconchegante na espera do aeroporto ou de um terminal rodoviário quando você está a espera daquela pessoa gentil e amorosa que tranquiliza todo seu sistema nervoso e que você não a vê já tem uns dias. O amor é banho quente no final de um dia exaustivo e é tambem banho gelado de mar calmo em um dia de verão. O amor é repouso no peito de um dengo enquanto ela acarecia seus cabelos e te enche de beijo e de afago. Amor é escuta ativa em um dia turbulento sem julgamentos, sem resolutividade, apenas escutar e acolher em meio a algum caos cotidiano. O amor é mensagem inesperada de quem pensa em você e não quer que você se esqueça disso. Amar é admirar o mesmo céu por algumas horas en...

Mil pensamentos

Essa é uma daquelas semanas que a minha cabeça ferve e insiste em trazer infinitos questionamentos, inúmeras lembranças e me faz sentir uma bagunça interna gigantesca. Estou tentando me lembrar qual foi a ultima vez que eu senti tranquilidade e segurança porque a maioria dos dias nao tenho sentido. Tenho pensado em dar um tempo da cidade grande de novo, mas ao mesmo tempo que quero aterramento, casa, aconchego, sinto que aqui está sendo dificil fincar novas raizes. E mais uma vez meu corpo grita por mudanças. Estou começando a achar que sou muito livre para tantos aprisionamentos, escutei isso de uma entidade dias desses quando ele falou sobre minha espiritualidade ser muito livre para querer estar dentro de um terreiro ou uma igreja.  Nunca fez tanto sentido. Estou tentando ter calma para tomar as melhores decisões possíveis. Fazem 10 meses que voltei para São Paulo novamente. Antecipei minha volta para cá e sinto que era o momento certo e a coisa certa a se fazer. Mas me sinto ag...

Quando a gente vira lar para quem ainda mora nos próprios escombros

Outro dia estive refletindo sobre a maneira como fazemos casa nas ruínas do outro.  Como tu quer se alojar e buscar abrigo em um território totalmente destruído?  Pensando nisso me dei conta de quantas vezes eu reconstrui minha casa e fiz dela abrigo para que outra mulher passasse um tempo e ela destruiu. E não que ela quisesse intencionalmente e propositalmente acabar com todo meu espaço que eu havia reconstruido, mas é que se a pessoa destrói tudo por onde passa certamente ela não sabe viver com tudo organizado em sua volta.  Abrigar alguém que ainda não conseguiu reconstruir sua própria casa para ter um lar seguro dentro de si mesma, é correr o risco de as duas ficarem sem refúgio. Vagando sem direção, sem lugar para se ancorar quando se faz necessário o descanso, a pausa e o desfrute do tédio.  - cuidar do próprio templo é entender que na dança das trocas justas, eu te abrigo e você me abriga. Eu te sirvo um chá quente na minha casa e você também me dá de beber. ...

Sobre o que é que se sente quando se apaixona

  Hoje me dei conta de que eu ainda não havia escrito sobre a nossa história. Eu ja havia contado e recontado ela infinitas vezes, em mesas de bares, para amigas, para estranhos, no retiro que fiz ano passado em Junqueiro AL. Eu já contei sobre nós e principalmente sobre meus sentimentos relacionados a nós até para tarologas, psicólogas, ex ficantes, ex namoradas, bichinhos de estimação... Mas não contei na escrita. Descrever aquele dia e todos os outros após ele é olhar por uma perspectiva que eu havia fugido infinitas vezes. Agora achei importante trazer para o que eu amo (a escrita), as verdades que carrego comigo. Até mesmo porque, a ultima vez que contei sobre isso foi para alguém que nem esta mais vivo. Foi quando percebi que ele que não está mais vivo a cerca de anos conseguia enxergar coisas em mim que eu mesma estava com dificuldades de aceitar. Tudo começou naquela noite, de sexta ou sábado,  não lembro exatamente o dia.  Mas lembro que eu estava bem, e que havi...

O gosto que tem do que é mútuo

 Uma saudade efêmera hoje corroeu o meu peito e embargou minha voz.  E eu não pude contar dela para ninguém. Eu não quis compartilhar dos meus momentos bonitos, aqueles poucos momentos bonitos em que eu me senti vista e real. Não que eu não me sinta real, é que eu já soube o que é sentir um frenesi no meu corpo ao saber que ali eu estava sendo vista de todos os angulos, da alma pra fora. Impossivel esquecer o valor que alguem nos deu. Carrego como mantra tudo de bonito que ja foi me dito. Até porque, poucas coisas bonitas já foram me ditas antes de você. Eu vivi poesia, vivi um conto de fadas real, vivi uma uma saudade bonita. Uma mutualidade gravitacional de afetos genuinos e doces. E é só estando muita viva que tudo isso se vive.